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Revista AU Arquitetura e Urbanismo – 224

nov 10, 2012 | Imprensa

 

Inteligibilidade da palavra falada e naturalidade do sistema de som, baixo nível de ruído e tempo de everberação controlado são as principais metas a serem cumpridas pelo condicionamento acústico de um auditório corporativo.

Mas é preciso pensar em tudo isso antes de construir a sala: ‘O especialista em acústica tem de interagir com todas as outras especialidades para a consolidação do projeto executivo: arquitetura, fundações, estruturas, pisos, circulação externa à sala, ar-condicionado, elétrica, e até mesmo condições urbanas e de tráfego circundante’, indica o engenheiro Fernando Henrique Aidar. Isso porque qualquer falha pode gerar vibrações no solo ou no corpo estrutural do edifício, condenando a qualidade de propagação do som.

Por outro lado, um bom forro acústico poderá ajudar muito a melhorar tal desempenho, embora não seja sine qua non de um projeto funcional. “O desempenho do auditório, seja para a música, seja para a articulação da palavra falada, está definido primordialmente na geometria e na volumetria do espaço, e em sua relação, por exemplo, com o número de poltronas”, afirma José Augusto Nepomuceno, arquiteto e sócio-diretor da Acústica & Sônica.

Ainda assim, o forro pode servir de reparo a um espaço que foi mal projetado, por exemplo, ou que não era originalmente um auditório, sem a diminuição ou delimitação do volume espacial. O caso mais notório de reparação acústica é o edifício da Aula Magna , auditório da Universidade Central da Venezuela, em Caracas, projetada pelo arquiteto Carlos Raúl Villanueva e com acústica de Robert Newman, no qual móbiles desenhados por Alexander Calder assumiram a função do forro. “Existem, entretanto, poucos relatos de auditórios fracassados que tenham sido “salvos” por um desenho apropriado de forro. Esse exemplo não nos autoriza a dizer que sempre será possível “remendar” a acústica com o forro”. Alerta Nepomuceno.

O forro de um auditório pode ser composto de diversos materiais: concreto, madeira (maciça ou estuque), metal, vidro, gesso, lã de rocha, placas de PVC extrudado, fibras minerais. “O importante é que isolem calor, frio, fogo e ruídos exteriores; reflitam, absorvam e difundam o som; queimem lentamente e não produzam muita fumaça e gases letais, em caso de incêndio, resistam à umidade e não se deformem, e sejam fáceis de limpar e de trocar”, enumera Fernando Henrique Aidar.

Além do básico

Tendência é usar forros não somente no teto, mas também como nuvens e elementos suspensos, além de misturar materiais e combinar suas propriedades para o condicionamento desejado.

Qual o papel do forro no desempenho acústico de auditório para palestras? O forro é uma necessidade?

MARCOS HOLTZ É preciso buscar um consenso sobre o que se entende por forro. Há conceitos novas nuvens acústicas, elementos suspensos e sistemas fechados, já conhecidos. Depois, é preciso pensar que qualquer sala terá um resultado acústico. A questão é se o resultado que surge vai ser adequado ao uso. Um forro para sala de palestras não vai funcionar para apresentações musicais. Então, tudo começa na destinação a ser dada à sala. Outro ponto é que os arquitetos no Brasil não têm muita ideia de como a acústica funciona. Não se estuda isso na faculdade, e é raro ver quem se dedica ao assunto.

JOSÉ CARLOS GINER Para qualquer espaço ou sala confirmada não devemos pensar em um único elemento, por exemplo, o forro. Cada sala terá seu comportamento, e é preciso saber o que é mais adequado à sua finalidade. No corporativo, a palavra falada é mais importante, e o forro não é o único elemento relevante. Temos que conhecer o formato da sala, o tipo de forro, a parede, o piso, a mesa, o material da cadeira, é preciso saber o que vai rebater o som. O isolamento pode ser mais importante porque promove inteligibilidade, o que está diretamente ligado ao nível de ruído. Se a relação sinal-ruído é rara, não há inteligibilidade e não adianta fazer nada.

Então o forro pode não ser necessário?

JOSÉ CARLOS Exatamente. Depende muito do projeto. Um dos erros mais grosseiros é lançar em uma sala cada forro absorvente sem critério. Eu não entendo para quê fazer esse tipo de coisa se o resultado acústico sem o forro era até melhor. Não adianta achar que o condicionamento acústico é sinônimo de absorção. É preciso pensar também em reflexão e difusão.

MARCELO PEDROSA O condicionamento acústico também leva em conta a percepção do que cada um tem de ruídos existentes. Por exemplo, nesta sala, ouvimos os aviões lá fora e só a presença do forro acústico já minimizaria bastante essa relação com o ruído externo, isolando o ambiente. O projeto passa por pontos distintos, o primeiro é conter o que está dentro do espaço para que haja confidencialidade, o segundo é segurar o barulho que vem de fora para que não vire ruído, e em terceiro vem a otimização do que se produz ali dentro por meio da inserção de outros elementos condicionantes de acordo com a função do espaço.

MARCOS Hoje, alguns clientes gostam, por questão estética, de salas sem forros: amplia os espaços, dá vez aos elementos suspensos… É um estilo mais despojado de escritório, que foge aos padrões tradicionais. Nesses casos, há outras opções de condicionamento acústico como o jateamento de celulose e a espuma lisa plana, colada à laje.

PASCOAL GUGLIELMI A preocupação é que o som tenha qualidade e abrangência. Em uma sala de conferências o cuidado é para que o som chegue às últimas fileiras. O projetista utiliza elementos que produzam um nível de reverberação adequado para que a palestra não morra nas primeiras filas. Investir somente em material absorvente produz uma sala muito seca, e a voz não estará inteligível no ponto mais distante. Por outro lado, se o espaço tem paredes e forros de madeira, que refletem o som para o fundo da sala, lá serão necessários materiais absorventes para não surgir o problema de ecos.

MARIA TEREZA ALMEIDA Acredito também que cabe a nós, fabricantes, a responsabilidade de oferecer aos especialistas e consultores soluções bem certificadas, apresentando curvas de desempenho acústico dos materiais com bastante clareza e seriedade, e alternativas de produtos que possam ser compostos entre si – placas que, ao mesmo tempo, sejam absorventes incorporam a iluminação, com translucidez e o mínimo de poluição visual. Isso é o melhor que nós fabricantes podemos fazer, porque não vamos fazer o projeto nós mesmos. Somos procurados por uma série de arquitetos que não entendem de acústica sugerimos que procurem a consultoria de especialistas.

JOÃO ALVARENGA Interessante exemplo de como o forro pode ser essencial ao projeto é o da Sala São Paulo. Lá o forro é modular, em preços móveis que sobem e descem, de forma a adaptar a cada apresentação o volume ideal da sala. Isso individualiza o tempo da reverberação.

A acústica, dentre todas as interfaces do projeto parece ser a que chega mais próximo de ter uma fórmula individual para cada caso no desenvolvimento de projeto. Então, como desenvolver produtos que possam ser aplicados à totalidade – ou a pelo menos uma maior gama de projetos?

JOÃO É muita pesquisa. Além do desempenho técnico funcional, há a durabilidade, a resistência mecânica contra o fogo, contra infiltrações e umidades, entre outros.

MARCOS A PróAcústica está desenvolvendo um manual para o projeto corporativo, e essa foi exatamente uma das nossas grandes discussões: será que um manual não engessaria o projeto? Estabelecemos então critérios baseados no desempenho em função do uso desses espaços favorecendo níveis de ruído ambiente e tempos de reverberação ideias. Geraram grande polêmica dados que fornecedores deveriam apresentar aos projetistas. Nossa recomendação será que apresentem a curva de absorção em terço de oitava para que possamos utilizar de forma padronizada oun (alpha VI) – coeficiente de absorção sonora ponderado.

CATARINA SILVA Temos produtos fabricados nos Estados Unidos, outros vêm da Europa, é normal que cada país tenha seu método de informar as especificações. E é o fabricante quem tem de realizar testes e oferecer dados necessários para o uso do α ou do NRC.

JOSÉ CARLOS Acho muito importante que projetistas possam trabalhar com dados técnicos confiáveis. Um grande problema que tínhamos, e às vezes ainda temos, é que números e resultados de desempenho dos produtos não se mostram verdadeiros. Estamos mais ligados nisso porque agora temos um volume maior de trabalho e usamos softwares de simulação que exigem qualidade da informação na entrada de dados.

MARCOS Mas esse setor ainda é um dos mais bem organizados. No caso dos forros, já temos algum desenvolvimento. O problema é que fornecedores importam da Suécia, dos Estados Unidos, da Alemanha e da Espanha, e precisamos dizer a eles quais dados nos devem ser fornecidos.

PAULA EPÍSCOPO OMIZZOLO Há outra dificuldade que ainda não foi mencionada, que são as mudanças constantes nos ambientes corporativos, muitas vezes condicionados acusticamente para certa função e que passam a abrigar outros usos. Se houver pelo menos um cuidado especial com o forro desde o início, o conforto, em qualquer um desses usos, já estará ao menos parcialmente equacionado. Além disso, é ótimo ter um consultor acústico, mas nem sempre esse técnico está envolvido no projeto ou na reforma.

O que ocorre quando o projeto não é pensado, na origem, em termos de bom desempenho acústico e, depois de já pronto e em uso, se decide dar a ele um condicionamento para a sala de conferências? Isso é possível em qualquer tipo de ambiente?

PAULA Pode não solucionar a questão acústica, mas o condicionamento vai melhorá-la.
JOSÉ CARLOS A melhor resposta é: “depende”. É provável que grande parte do problema possa não ser solucionado, apenas minimizado. Em outras situações pode até piorar.

Quando?

MARCOS Por exemplo, se houver um ruído excessivo de 50 dBA, dentro de um auditório. Pode ser devido a um equipamento de ar condicionado muito barulhento. A composição acústica leva em conta inúmeras variáveis, e o ruído de fundo é muito importante, principalmente na definição de sua inteligibilidade.

LEONARDO SIAIS FURTADO Na área de instalação e execução, temos outra grande dificuldade, que é a interferência de sistemas como iluminação, instalações prediais de ar condicionado, projetos para um tipo de acabamento que não feche com o material especificado no projeto acústico. É urgente que tais projetistas saibam disso, para que vejam o que precisa ser ensaiado, o que deduz dos próprios cálculos, ou ainda o que é defeito de instalação ou resultado de projeto acústico desenvolvido em total desconexão com outros sistemas. Não se consegue, no geral, fazer o que o projetista de acústica desenha, principalmente no isolamento.

MARCOS Nós temos muitas opções de forros de alto isolamento, sem o septo. E como os novos espaços corporativos têm de ser flexíveis, a melhor solução está nos produtos de alto desempenho.
PAULA O problema é cultural. Nós temos o produto de alto desempenho, só que não há demanda no Brasil. Se a gente o traz, fica encalhado no estoque.

CATARINA Nunca numa obra vi execução bater exatamente com o projeto. Se não conseguirmos fazer um único prédio no esquadro, na medida certa, difícil vai ser acertar o condicionamento acústico com perfeição.

LEONARDO Projetos que dão certo são sempre aqueles que têm execução acompanhada pelo projetista. Mas isso quase nunca acontece. Na verdade a questão é que os construtores mudem os produtos já especificados na hora da execução, optando pelo que é mais barato. Não tem como funcionar.

MARCOS O chefe da obra terá que ser o arquiteto, e não o incorporador. No Brasil, o responsabilizado por erros na obra não é o arquiteto. Nos Estados Unidos, tudo que dá errado na execução é culpa direta dele.

PASCHOAL Seria assim se a norma de desempenho “pegasse” por aqui – quem projeta responde pelos erros. Isso é interessante, porque joga a responsabilidade do desempenho não só nas mãos de quem fabrica, mas também de quem deve deter o conhecimento técnico para especificar. Isso garante execução mais exata.

Além dos forros de alto desempenho, quais são as novidades desse mercado?

PAULA Temos um produto absorvente de alto desempenho com acabamento em impressão de madeira. Acho que o mercado vai caminhar por essa trilha, porque os arquitetos exigem muito quanto aos acabamentos.

CATARINA Temos também forros coloridos e em várias impressões. Uma característica do mercado brasileiro, porém, é que tudo deve estar disponível para pronta-entrega, o que dificulta produzir muita variedade de impressões.

MARCOS É importante dizer que nossos projetos não aplicam exclusivamente só metal, ou fibras minerais ou madeira. Eles tendem a ser uma mistura de todos os materiais disponíveis, de funções diversas, de acordo com o desempenho objetivado.

O forro do auditório do Centro Cultural Araras, interior de São Paulo, é em réguas de madeira de 10cm, distanciadas 1,5cm umas das outras. Chassis de madeira revestidos com chapa de aço atuam como rebatedores, com geometria calculada para projeção do som para o fundo do auditório, favorecendo reflexões laterais decisivas à sensação espacial durante apresentações musicais. O projeto acústico da Harmonia, com arquitetura do escritório AUM, controla o ruído de fundo dos equipamentos de ar-condicionado com envoltório para obtenção de baixos níveis de ruído interno. Alguns dos painéis nas paredes laterais são deslizantes e permitem adaptar índices de absorção de acordo com a situação do dia.

 

 

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