É comum, durante os kick-offs de projetos acústicos em espaços corporativos, recebermos uma premissa arquitetônica muito clara: “Queremos usar aqueles painéis de PET coloridos na parede, os materiais absorventes “hypados”!

E nós entendemos! São produtos visualmente interessantes, rígidos, disponíveis em diversas cores e fabricados com fibras de PET reciclado provenientes de garrafas plásticas.
Mas aí vem a pergunta que sempre fazemos: e as propriedades acústicas?
Muitos desses painéis possuem apenas 8 mm de espessura e, quando instalados diretamente sobre a parede, apresentam maior eficiência nas altas frequências, com resultados mais expressivos a partir de aproximadamente 3150 Hz.
Ou seja: funcionam, mas não necessariamente onde mais precisamos quando estamos falando de ambientes corporativos, nos quais a inteligibilidade da fala e o conforto acústico são fundamentais.
Por isso, levamos o material para o tubo de impedância da Giner para testar uma possibilidade simples:
E se afastarmos os materiais absorventes da parede?

Nos ensaios, avaliamos o comportamento do painel de 8 mm instalado diretamente e também com uma cavidade de ar de aproximadamente 50 mm.
O resultado é bastante interessante: com o afastamento, observamos uma melhora significativa da absorção nas frequências médias, aproximadamente entre 500 e 2500 Hz.
No ensaio, o coeficiente de absorção passa de cerca de 0,08 para 0,66 em 500 Hz, de 0,11 para 0,82 em 630 Hz e chega a aproximadamente 0,92 entre 800 e 1000 Hz.
Essa faixa de frequências é particularmente importante para a comunicação e a inteligibilidade da fala em ambientes corporativos.
Mas por que isso acontece com materiais absorventes?
Do ponto de vista físico, um painel poroso e relativamente fino, quando instalado diretamente sobre uma parede rígida, tem uma profundidade de material muito pequena para dissipar de forma eficiente a energia sonora nas frequências mais baixas. A maior parte da absorção acaba ocorrendo nas frequências mais altas.
Quando criamos uma cavidade de ar atrás do painel, aumentamos a profundidade acústica do sistema.
Essa camada de ar modifica a impedância acústica do conjunto e favorece a interação da onda sonora com o material em frequências mais baixas.
Na prática, parte da energia sonora que antes seria refletida pela parede passa a ser dissipada pelo sistema painel + cavidade de ar.
É por isso que um simples afastamento de 5 cm pode produzir uma diferença tão expressiva no desempenho, sem alterar o painel propriamente dito.
Ou seja: às vezes, não é preciso trocar o material, mas sim pensar em como ele será instalado.
O mesmo painel pode apresentar comportamentos acústicos bastante diferentes dependendo da forma de instalação.
Confira no gráfico os resultados dos nossos ensaios:

E aqui fica a provocação: será que estamos especificando materiais absorventes porque eles realmente resolvem o problema acústico ou porque são bonitos, sustentáveis e estão “hypados”?
Será que “PET reciclado” virou sinônimo de “bom desempenho acústico”?
Será que um material ter um alto coeficiente de absorção em 5000 Hz significa que ele é uma boa solução para qualquer ambiente?
E, principalmente: quanto do desempenho que buscamos está no material e quanto está na forma como ele é instalado?
Comente!
#acustica #acusticaarquitetonica #confortoacustico #absorcaosonora #petreciclado #arquitetura #arquiteturacorporativa #engenhariaacustica

